Arquivo do mês: março 2012

Lançamento de CONTOS DA COLINA

Com muita emoção e visitas inestimáveis, CONTOS DA COLINA – 11 ÍDOLOS DO VASCO E SUA IMENSA TORCIDA BEM FELIZ foi lançado na segunda, 19/03.

As fotos certamente falam por si.

A Oficina Raquel agradece aos que lá estiveram, inclusive ao Programa Redação SporTv, especialmente Fernanda, André e Priscila.

Para assistir à excelente matéria, clique aqui

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Fotos de Mariana Vilhena

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Contos da Colina: é segunda!

Aproxima-se o lançamento de Contos da Colina. Temos a honra de apresentar três dos doze protagonistas, um entre dois dos autores, Luis Maffei e Mauricio Murad, outros com o livro em estado de pré-leitura. 

É necessário declinar os nomes? 

Todos na Saraiva do Rio Sul, a partir das 19 h

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convite de lançamento CONTOS DA COLINA

convite de lançamento CONTOS DA COLINA


Vasco da Gama e Oficina Raquel lançam livro de contos a partir de grandes craques do clube

Três destacados escritores vascaínos e a editora Oficina Raquel se juntaram para um projeto apaixonante: o livro Contos da colina – 11 ídolos do Vasco e sua imensa torcida bem feliz. São doze contos, onze dos quais contando uma estória em torno de um craque vascaíno, e um cujo protagonista será a torcida cruz-maltina. Todos os textos são ficcionais, promovendo o encontro entre a literatura e o futebol, ou entre a criação literária e a paixão pelo Vasco da Gama.

Os contistas são inveterados torcedores do Gigante da Colina. Nei Lopes é compositor, escritor e estudioso da cultura afro-brasileira, tendo vastíssima produção literária e artística; em novembro de 2005, recebeu do governo brasileiro a Ordem do Mérito Cultural, no grau de comendador, e foi premiado como Homem de Ideias, pelo suplemento Ideias, do Jornal do Brasil, em 2009. Mauricio Murad, além de romancista, é professor da Universo e lecionou durante vários anos na UERJ; é um dos mais destacados pesquisadores brasileiros na área da sociologia do esporte, na qual milita com livros e artigos acadêmicos de grande relevância. Luis Maffei é professor de literatura portuguesa da UFF, ensaísta e tem quatro livros de poesia publicados – um deles, 38 círculos, é todo centrado na campanha do Vasco na série B de 2009. O prefácio será assinado por Sérgio Cabral.

Os craques ficcionados são: Ademir Menezes, Alfredo Segundo, Barbosa, Bellini, Danilo, Edmundo, Eli, Ipojucan, Juninho, Roberto e Sabará, além da torcida.


Entrevista com André Dick (por Fernando Miranda)

Num mundo de consumidores, como considerar uma ética do escritor, inclusive do poeta? Haveria algum papel social do poeta ou a autonomia da Arte o livraria desta responsabilidade? Acredito ser essencial uma ética do escritor, inclusive do poeta, assim como de qualquer ação humana no dia a dia. Concordo com Roland Barthes quando ele diz que a ética está fundamentada em todas as coisas, ou seja, não pode se transformar num monólogo. Este caminho não desafia, pois a poesia é um instrumento também de diálogo, sem qualquer viés edificante, mas estruturada pela linguagem. Considerar que a linguagem pertence a apenas alguns é ilusório; ela integra o dia a dia das pessoas, como a ética. Por isso, não acredito no papel social do poeta nos termos românticos, de Schlegel, por exemplo, e, na modernidade, de Adorno, ainda adotado por alguns. Eles imaginam o poeta como uma porta-voz da sociedade – o que, a meu ver, inexiste e é prejudicial, à medida que o poeta, nesse caso, continua a ser visto como um ente à parte, superior ao restante da humanidade, que deveria, para encontrar todas as soluções, segui-lo. Tampouco compartilho da ideia de autonomia da Arte, da Arte pela Arte, que costuma ser a antítese do poeta social. Toda poesia e toda obra estão ligadas a um indivíduo, por mais plural que ele seja, mas humano. A começar por Mallarmé, acusado de fazer a Arte pela Arte, um poeta que buscava retratar suas experiências em poemas de grande radicalidade e extremamente humano. Aproveitando que cita Mallarmé, recupero uma frase de Cortázar, escrita numa carta a Roberto Fernández Retamar: “De la Argentina se alejó un escritor para quien la realidad, como lo imaginaba Mallarmé, debía culminar en un libro; en París nació un hombre para quien los libros deberán culminar en realidad”.Nem mesmo quando afirma que tudo é feito para acabar em livro – ou seja, parecendo submeter a vida, a realidade, à criação literária – ele deixa de ser ambíguo. Pois, enquanto os românticos desejavam um Livro como uma Bíblia, Mallarmé o preferiu como um diálogo com o público, como numa Missa. Mas essa Missa não seria mais mística, e sim baseada na leitura aleatória de suas composições. Não pode haver o “evangelho de humanidade e de formação” imaginado por Schlegel, mas um ser em constante dispersão, que tenta se elaborar por meio da escritura, mas não termina nela, pois é sempre linguagem e esta nunca fica concentrada num determinado ponto. A maneira como Mallarmé lida com este conceito de livro, em cartas, ensaios e poemas, configura uma necessidade, ao mesmo tempo, de ele reunir à sua obra um componente teatral. O fato de considerar que a alma deve caber no livro nos parece ser a necessidade de aceitar que tudo é linguagem, ou seja, de que esta configura uma realidade à parte, o que nos parece puro teatro. Mallarmé talvez não entendesse, naquele momento, que a realidade é constituída pela linguagem, numa inter-relação – por isso, ele é falho, em suma, um moderno.

A marginalização da poesia dentro do mercado editorial, muito por conta da baixa quantidade de leitores, não impede que sejam distribuídos prêmios literários, alguns em alto valor monetário. Você mesmo foi, recentemente, contemplado com o Prêmio Açorianos, pelo livro Calendário. Evidente, um prêmio instituído por uma prefeitura, como é o caso do Açorianos, não entra na mesma ordem de um prêmio conferido por empresas privadas. Pensando a partir de Herberto Helder, que se recusou a receber o Prêmio Pessoa, como vê a relação do escritor com este ambiente que parece tocar mais no mercado que na Literatura?

Sempre publiquei meus livros por editoras ditas “pequenas” (são raras editoras como a Oficina Raquel, que investem em poesia). No entanto, creio que pequenas são as editoras que não investem em poesia, ou que, quando o fazem, é apenas para investir no já consagrado ou reconhecido. Nesse caso, visam somente o lucro e o mercado que, para mim, é um tanto abstrato. Tornou-se comum dizer que há mais poetas do que leitores de poesia. De certo modo, é verdade: a poesia é considerada um escape da realidade, um lugar para confissões ou mensagens. É mais fácil fazê-la, nesse caso, do que conhecer a fundo seus autores. No entanto, é preciso pensar sempre na sua importância para a literatura. Embora, como muitos já disseram, tenho dúvidas de que ela faça parte da literatura, conforme conhecemos esta hoje e que, segundo alguns teóricos, no final dos anos 1970, caminhava para o desaparecimento.
Fui contemplado com o Açorianos, que é um prêmio muito importante, o que me honra. E também com a Bolsa de Estímulo à Criação Literária, da Funarte, em 2007, para a realização do livro O equilíbrio do dia. Os prêmios são um incentivo para a produção. E isso, creio, não se deve perder de vista: a concretização ou valorização da obra. Se os prêmios servirem apenas para a satisfação pessoal ou para o interesse que se consuma o livro em larga escala, este passa a ser um caminho mais difícil. A poesia continua sendo, muitas vezes, como dizia Leminski, “antimercadoria” – apesar do meu interesse, como autor, seja ser lido, chegar a um leitor sensível, interessado em conhecê-la, independente da repercussão que ela possa ter ou não, ou seja, ela também não deixa de ser mercadoria, mesmo que diferente daquela do consumismo puro e simples. O fato é que o autor quer também um diálogo; caso contrário, ele não escreveria. Nesse sentido, é preciso haver, assim como os prêmios literários, espaços para a difusão dela.
No caso de Herberto Helder, admiro-o muito. Porém, essa atitude faz parte da sua postura, que se deve, na minha opinião, a questões particulares de sua trajetória, do final da década de 1960, que fizeram com que se afastasse de prêmios e entrevistas. É preciso respeitar. No meu caso, se é um prêmio que valoriza a obra, como o Açorianos, de Porto Alegre, cidade onde nasci, considero muito significativo recebê-lo – nesse sentido, na minha opinião, o livro não deixa de ser literatura e não passa a ser mais mercadoria.

Além de poeta, você possui uma formação acadêmica, como outros nomes da poesia brasileira mais recente. Cito, por exemplo, Paula Glenadel, Luis Maffei, Sérgio Nazar David, Maurício Chamarelli. Considera isso uma casualidade ou a poesia brasileira estaria restringindo-se, cada vez mais, ao ambiente acadêmico?

Há poetas que são também estudiosos, cada vez mais. Os nomes que você traz à questão são bons exemplos. Creio que isso se deve ao crescimento do meio acadêmico nos dias de hoje. Os poetas costumam buscar o estudo de alguma obra – e isso se dá nesse meio, apesar de poder existir com a mesma força ou continuar fora dele também, por meio de diferentes autores. A Glenadel e o Maffei, entre os que você cita, ajudaram a trazer poetas franceses e portugueses, respectivamente, para o Brasil. No meu caso, fiz graduação em Letras e o mestrado e o doutorado em Literatura Comparada sobre Mallarmé – no mestrado, ligando-o ao modernismo e à poesia concreta, com um capítulo dedicado a Haroldo de Campos (um dos exemplos principais, a meu ver, de poeta-crítico). Parte da minha tese, reformulada, resultou depois no livro de traduções Poesias de Mallarmé. No entanto, não creio que haja uma poesia acadêmica, de gabinete, ou, como gostam de falar, “metalinguística” (que, como dizia Lacan, não existe, pois tudo é linguagem). Há uma poesia consciente da tradição, pois o desconhecimento desta é, a meu ver, muito mais perigoso do que seu conhecimento… E não se trata de uma tradição confortável: o poeta a busca com muito custo, muitas leituras. Os poetas, hoje, sabem que não estão criando algo totalmente inovador, que ninguém criou antes. E isso costuma ser visto como algo acadêmico – que seria mais acomodado, estagnado. Não me parece real. Grande parte dos bons poetas, hoje, sai de universidades. Além dos críticos – que saem dos cursos de Letras também, para o incômodo de alguns – e tradutores (lembro, por exemplo, de Aurora Fornoni Bernardini, Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira e Yun Jung Im). Há também uma crítica literária de qualidade feita no jornalismo, como a de Fabrício Marques e José Castello. Mas não entenda, porém, que considero a academia indispensável. Como dizia Ezra Pound: “Há uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colégios são DISPENSÁVEIS para que eles permaneçam vivos para sempre. Tirem-nos do currículo, lancem-nos à poeira das bibliotecas, não importa. Chegará um dia em que um leitor casual […] os desenterrará e os trará de novo à tona, sem pedir favores a ninguém” (ABC da Literatura, tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes). Isso também é verdade. Este leitor, grande parte das vezes, não tem presença efetiva no campo literário, ou mesmo acadêmico, mas é importante o bastante para manter o autor vivo.

Pelos títulos dos seus dois primeiros livros, desconfio de uma linha não casual, pois Calendário, de algum modo, não deixa de ser Grafia em Papel de Parede. Se o que afirmo tem cabimento, quais as relações que encontra entre teu último livro e os dois anteriores?

Você tem razão. Esses títulos se interligam e acho que os livros se complementam, apesar de terem suas características específicas. Papéis de parede já é uma expressão anunciada num dos poemas de Grafias, e a imagem do calendário aparece num dos poemas de Papéis de parede. De modo em comum, remetem a algo que está na parede de uma casa – e a casa é sempre uma presença importante em todos eles. O Grafias tem poemas mais sintéticos, elípticos, e remetem a imagens sobretudo de infância – porque quis retomar as “caligrafias” de determinados instantes, dialogando um pouco com os cadernos de primeira série. O Papéis de parede guarda uma atmosfera mais nublada, encoberta, com poemas mais longos – não é tão solar quanto os outros dois. Tem construções mais longas, mas que procuram uma contenção e, assim, algumas construções de Calendário não seriam possíveis sem ter passado por ele. O Calendário, a meu ver, e isso pode ser posto em desconfiança, pois não tenho a devida distância da obra para análise, equilibra mais as tentativas do primeiro e do segundo. Continua havendo nele uma presença da natureza, como nos dois primeiros, não só afastando-se de uma paisagem urbana, mas com a presença de flores de todos os tipos e imagens de árvores, bairros, estradas e praias ou lagos – o que muito me interessa. Parece algo apenas literário se você está em um espaço mais urbanizado, mas não no interior. A infância das coisas é muito melhor vista num lugar menos amplo. E a generosidade do espaço pequeno é muito mais intacta do que num lugar em que ela se perdeu para nunca mais voltar. A proximidade com a pintura também foi se acentuando, sobretudo com os trabalhos de Edward Hopper e de Mondrian. Além de ser um lugar biográfico para pessoas, próximas ou distantes, e lugares. Procuro, também, uma diversidade maior de tamanhos de versos e ritmos em Calendário; por isso, considero-o mais bem acabado. No entanto, há pontas soltas neles que são mais esclarecidas em O equilíbrio do dia – que passa por São Paulo – e por isso considero interessante que uma obra possa esclarecer a outra.

Podemos afirmar que o mundo opera com um calendário universal, independente de muitas culturas possuírem outras “medições”. Quando leio o teu Calendário e me deparo com paisagens distantes, como a Floresta Negra, de valor simbólico diferentes para indivíduos de diferentes regiões deste chamado mundo globalizado, e deparo-me com poemas escritos em língua portuguesa, ponho em dúvida, pelo menos em parte, a ideia de Weltliteratur. Em sequência, sou provocado, ao ler em “Horizonte”, “(…) a biblioteca é uma possibilidade de calendário, aproximando os morros distantes”. Seria a Literatura um viés de aproximação ou entendimento dos povos, como poderia plantear, por exemplo, Goethe?

Gosto muito dessa pergunta, como das demais. Nunca havia pensado nisso: na imagem do calendário como objeto universal – pensei sobretudo na demarcação do tempo, de fases da vida e da natureza –, tampouco na imagem da biblioteca aproximando “morros distantes”, ou seja, é inconsciente. Sua interpretação é perfeita. Aprecio a ideia de Weltliteratur, de Goethe, essencial para a Literatura Comparada. No caso do primeiro poema que cita, a “floresta negra” remete sobretudo a Georg Trakl e às fábulas em que as personagens adentram nesse ambiente soturno. É um poema, na verdade, hospitalar, como em Sebastião Uchoa Leite (que tanto aprecio), assinalando a passagem de tempo. E gosto, sim, de imaginar a literatura e a poesia como um viés de aproximação e entendimento dos povos – mas sem porta-vozes. “Horizonte” recupera um período em que trabalhei numa biblioteca, a convivência diária com estantes cheias de livros. Nela, descobri muitos autores, entre os 19 e 24 anos. Poetas como William Carlos Williams ou Wallace Stevens parecem trazer sensações de horizontes e imagens que posso vivenciar no Rio Grande do Sul. Assim como as pinturas de Edward Hopper. Celan e Plath retratam uma busca pessoal e, ao mesmo tempo, universal por algo perdido, remoto – o que todos procuram. Rimbaud e Mallarmé falam das cidades como se estivessem, hoje, numa cidade do interior – me identifico com eles também por isso. A parte final de Calendário dialoga diretamente com o Fragmentos de um discurso amoroso, do Barthes, e traz uma “curiosidade sentimental do aroma” de Bandeira. Tenho grande admiração por Murilo Mendes, Drummond e João Cabral, falando de suas experiências específicas, religiosas ou não.
A poesia é uma peça para buscar esse entendimento de que as coisas e as sensações não pertencem a um único lugar, a um único sujeito, que tudo está interligado, como a linguagem. Podemos estar, como num dos poemas de Calendário, ao mesmo tempo em Czernowitz, em Nova York ou na Faixa de Gaza – basta notar que as pessoas não têm mais um único lugar, onde permanecem fixas. Há também outro poema no Calendário, “O olhar”, que traz um gato transformando-se numa pintura ou em flores de Mondrian (o “Boggie-Woggie”, para mim, é um jardim cubista). É essa mudança que imagino numa poesia. Tal projeção se deve não apenas à abertura para outros países, por meio de autores diferentes, mas por um mundo globalizado no bom sentido, em que pessoas do outro lado do mundo podem transformar flores e linhas de um quadro ainda não visto num ser vivo.