Arquivo do mês: setembro 2013

A voz da poesia e o grande coro

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O novo livro de Luis Maffei me chamou atenção logo pelo título: Signos de Camões. O título me revela algo que já venho desconfiando e lendo por aí e que se refere à ambiguidade. Mas não é só isso. A ambiguidade me surge pelo fato do período do autor citado no título: o Renascimento. Ora, o objetivo deste movimento era simplesmente resgatar, fazer renascer, fazer surgir como uma Fênix boa parte da cultura greco-latina. Já aí existe a ambiguidade, pois é como se dissessem: fazer o que já foi feito. Claro que nós não vamos levar isto ao pé da letra… Shakespeare, Cervantes, Dante e Camões são para mim mestres da ambiguidade. Mas qual? Explico de maneira rápida. Shakespeare pelo seu “ser ou não ser”; Cervantes pelo sei Dom Quixote, ser que vive entre o “ser ou não ser”, ou seja, entre a realidade e possibilidade de outra; Dante (tal qual Cervantes) por subordinar, na sua Comédia, a realidade a essa possibilidade que todos nós temos de outra (menos áspera?); por fim, o nosso mestre maior da língua, Camões, pois soube diversas vezes também transformar sua realidade em arte. O que quero dizer e para que fique claro é: todos de certa maneira souberam contrapor a uma realidade dada a possibilidade de outra através da arte. Agora me ponho de frente a este título como Édipo a esperar o questionamento da Esfinge, pensando: “De quem são os signos?”.

A resposta seria fácil: “Ora, de Luis!”. Mas qual?

A ambiguidade, porém, não vem para nos estacar nas dúvidas, mas pelo contrário, vem para nos possibilitar aquela possibilidade outra de realidade (nossa, de agora e sempre) e arte, ambas se misturando e nos enriquecendo. O homem mais rico não é aquele que possui riquezas, mas o que possui muitas oportunidades de obtê-las.

Luis Maffei possui as mãos presentes, esses “formidáveis instrumentos de abertura” e tenta deslocar para elas, ou melhor, para a responsabilidade da escrita desses signos uma atitude heroica. Ele sabe que escrever esses signos não é uma tarefa fácil, tem a ciência da “urgência dos começos”…  E tem mesmo o tom heroico, pois diz: “Gosto o mundo, que me goste”, isso logo me lembrou muito o desafio feito por Camões nos seguintes versos: “E sabei que, segundo o amor tiverdes,/Tereis o entendimento de meus versos”. Ambos os trechos indicam para nós leitores o desafio que também é ler estes signos.

Quando diz: “o fardo é tão leve”, volta-me a ambiguidade, pois como deve ter sido, embora prazeroso, desafiante e um pouco pesado escrever com estas mãos, não?

Outra coisa que muito me chamou a atenção foi o trabalho com os versos e com as formas poéticas. A redondilha, o decassílabo, além da oitava camoniana, a sextina, e esses maravilhosos tercetos dantescos. Além do cuidado todo especial dado ao vocabulário (“o dialeto da tribo”): “pla, uoutra” (pág. 41).

“Em minha escolha te transformas” (pág.11), que belo convite nos é feito… a ideia pertinente de mudança… ; “esgota-se a garganta de cantar” (pág. 15) e me lembro do “Não mais Musa…” da epopeia camoniana.

Na terza-rima há Dante, mas percebi a presença de Herberto e até Heráclito. Este pela “água de meu rio”, “enquanto à agua eu adormeço”; Il Fiorentino, além da forma poética: “cantando atrás do inferno de sua amada”, meu Deus! É quase que Orfeu ao reverso, magnífico! O tema do exílio é de Dante e Camões e deste há ainda a ideia do “desconcertado” (as mudanças) neste poema-concerto-desconcerto.

O embate eu x mundo tão de outro poeta como Carlos Drummond, que diga-se de passagem cantou tão bem Camões, se mostra na solidão em derredor das “multidões e mudas”. “Com quantos naus se faz um proprietário” – o desfazer dos ditados e trocadilhos (lembro algures de ter visto o mesmo procedimento em Herberto)… A figura do proprietário me recordou “os donos do mundo” de Mário de Andrade (vide “Meditação sobre o Tietê”). Incrível como desse embate nasce não a comunicação, mesmo se aos reboliços, mas o tédio, típico spleen das metrópoles: “Não mora exuberância onde a rotina é/ usança ensimesmada e nada boa” (pág. 21).

A poesia é surpreendente porque cria com palavras a mágica das percepções refratárias (de refração): “O justo não é justo se não/ sabem” (pág.22). Eis um verso que invejo e que me arrepiou… verso poderoso! Ou então: “ – é preciso guiar os/ olhos ao olho do furacão” (pág. 44).E que belo jogo de indeterminação, sofisticação, temporal, alargamento da experiência: “E que depois de depois de depois” (pág.22).

Outros versos fantásticos são: “Quando é que estimarei ser a esperança/ motor atento e a tempo deste mundo?” (pág.29). É impossível enquanto leitor não se sentir englobado por estes versos. Que jeito belo de definir Destino: “Sabido é que algum tempo passa lento/ e não nos dá a saber como se trama” (pág.29).

“Já eles, dificilmente escaparão de que os vejo, pois os vejo, e verei sempre seus movimentos” (pág.33). Posso até correr o risco de descontextualizar, mas senti neste trecho a voz de Jorge de Sena-Camões do “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”. Também tenho a mesma impressão quando da leitura do poema das páginas 47 e 48, além de parecer também um monólogo de um new Hamlet.

Essa é a voz do poeta, do titã que que traz o fogo ao homem: “Na vida, a grande luta, /eu grito ao homem surdo/ enquanto eu tiver força, e ainda a tenho,”, mas ao mesmo tempo é o homem que também deve escutar esse grito, porque a “arte eu a estimo (ou seja, escrevo), eu a contenho (leitura, escuta da voz, do grito)” (pág. 35); “hei de agir com texto lido” (pág. 40).

O poeta Fernando Pessoa está em todo o livro, sinto-o como à espreita.

A minha leitura foi impressionista por um lado e analítica por outro, pois não tenho a veia do domínio do Zodíaco como Pessoa.

E para ficarmos em território poético português, Almada Negreiros num seu texto lá pelas tantas diz: “O gênio é a capacidade de fazer relações”. Há no jogo das relações poéticas a dinâmica das vozes. No final de tudo, o que há é o grande coro dos poetas sibilando a Voz da Poesia.

“Há signos com real, não sei se há cura” (pág.47), talvez ela exista e se os signos não são um indício, podem bem ser eles mesmos a nossa cura. É preciso saber abrir bem os ouvidos para o coro desse livro do poeta Luis Maffei, de Camões, de Dante, de Jorge de Sena e nosso também.

 

  Ranieri Basílio[1]

 


[1] Poeta, às vezes, e leitor de poesia de todos os espaços e tempos. 

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Febre de bola

É quase ano de copa no Brasil, e a Oficina Raquel não poderia decepcionar os fãs do esporte.

Temos dois lançamentos que estão com a bola toda.

De pernas para o ar reune crônicas sobre o grande e único Mané Garrincha, escritas por Gérson Suares, enteado do craque. É um livro sobre futebol, como não poderia deixar de ser, mas é principalmente um livro sobre o homem.

Diz o próprio Gérson: “O Garrincha que retrato no livro está desnudo, sem o uniforme do jogador; é o Garrincha caseiro, o pai, o marido, o brincalhão, um contador de histórias de bermuda, sem camisa e, principalmente, sem marcador.”

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Também lançado esta semana, o delicioso Cronicaturas de futebol, onde o autor Fernando Miranda traça em crônicas e caricaturas, um panorama do futebol mundial que se extende por 69 estádios, 9 países e quase 700 jogos, incluindo até histórias da própria adolescência.

Passando desde os grandes estádios até jogos de quarta divisão, é menos um livro sobre futebol, e mais um livro sobre amor pelo futebol.

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E para não sair do assunto, convidamos todos para continuar o bate-papo amanhã, sexta-feira dia 06/09, na Saraiva do Rio Sul, às 19h. O Papos e ideias oficina de futebol – Brasil na copa deste mês conta com a participação de Mauricio Murad e Marcelo Paes mediados pelo jornalista esportivo Roberto Assaf. Entrada franca, não percam!

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