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POÉTICA E FILOSOFIA DA PAISAGEM, Michel Collot


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C’est à l’horizon, derrière quelque forme ultime et légère qui s’y découpe, une région soudain plus intense de la lumière Du ciel. (…) C’est certainement, imagine-t-on, au moins jê Le fais moi-même Morandi a peint, et souvent, dans ses lacis destructeurs, ces ores de la terre vraie.[1]

 Os estudos de poesia vêm sendo marcados por uma estética do território, sobretudo nos últimos anos, através, por exemplo, da fenomenologia de Merleau-Ponty e dos conceitos de lugar e não lugar, propostos por Marc Augé. A mais recente escola francesa, que faz ecoar a voz do eu-lírico flaneur já presente na poesia baudelairiana, ensina-nos a identificar, na subjetividade dos versos, um espaço de interação reflexiva entre sujeito e ambiente que, se no texto se manifesta pela via da linguagem, no espaço configura-se como paisagem.

Michel Collot, que é professor de Literatura Francesa da Université Sorbonne Nouvelle Paris 3, diretor do centro de pesquisa Écritures de la modernité e, ainda, coordenador do grupo de investigação Recherches sur la poésie contemporaine, demonstra, nesta recolha de textos próprios, cuidadosamente traduzidos sob a coordenação de Ida Alves, professora da Universidade Federal Fluminense, sua postura crítica acerca da relação estreita entre a palavra poética e a paisagem. Tal reflexão estrutura-se em torno do que Collot denomina “pensamento-paisagem”, que tem por base a interação entre sujeito e território, visto que “a noção de paisagem envolve pelo menos três componentes, unidos numa relação complexa: um local, um olhar e uma imagem” (COLLOT, 2013, p. 17). Sendo assim, a paisagem torna-se elemento premente na poesia, visto que ocupa o local do “encontro entre o mundo e um ponto de vista”, não sendo “nem pura representação, nem uma simples presença” (Ibidem, p. 18).

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A partir dessa reunião fenomenológica de que nos fala Merleau-Ponty, entre o sensível e o inteligível, Collot estrutura a sua forma de pensar a poesia e a cultura contemporâneas, com o olhar que se expande no horizonte do visível, sendo preenchido pela linguagem. Assim, a construção do texto se dá a partir da interseção entre natureza e cultura, pois “a paisagem é configurada, ao mesmo tempo, por agentes naturais e por atores humanos em interação constante: é, portanto, uma coprodução da natureza e da cultura em todas as suas manifestações, desde as mais materiais (a começar pela agricultura) até as mais espirituais (pintura e poesia incluídas).” (Ibidem, p. 43).

Logo, a concepção dinâmica da paisagem encontra solo fértil na poesia, visto que “o sentido de um texto, como o de uma paisagem, baseia-se na disposição dos elementos que os compõem” (Ibidem, p. 47), e esse diálogo entre texto e paisagem, privilegiado pelas ideias de Collot, é apresentado, pela primeira vez em português, ao leitor brasileiro, nos dez capítulos que compõem Poética e filosofia da paisagem. Ao prefácio de Ida Alves e ao pequeno texto introdutório, de autoria do próprio Collot, seguem-se capítulos que se destinam a esclarecer, ao leitor interessado em uma estética que privilegia as questões paisagísticas, além do conceito de “Pensamento-paisagem”, as relações entre “Paisagem e literatura”, “Lugares românticos e descrição poética”, “Horizonte e imaginação”, e considerações sobre “O espaçamento do sujeito”, “A crise da paisagem”, “Transfigurações”, “Desfigurações”, “Abstrações” e “A abertura ao mundo”.

O livro percorre, portanto, uma trajetória contemporânea de análise do fazer poético enquanto forma de expressão marcadamente lúdica e que, por isso, caracteriza-se pela interação entre homem e natureza; desse modo, a poética não se limita à atitude mimética, bem como a paisagem não se encaixa, apenas, sob o conceito de obra do humano: apontando para uma ética da relação, a paisagem e o fazer artístico encontram-se no local do olhar, moldam-se a partir da interação do eu com o espaço, e a paisagem, bem como a literatura (ou outras atividades inerentes ao homem), são frutos dessa tentativa de síntese. Convém ressaltar que as questões relacionadas à Intersemiótica, tão em voga nas pesquisas literárias, ao valorizarem o diálogo interartes, aproximam-se dos estudos acerca da paisagem, uma vez que extrapolam procedimentos estéticos de origem mimética ou descritiva, para aproximarem-se, especialmente na contemporaneidade, de uma espécie de amálgama entre diferentes formas de arte, que trata não apenas de representação, mas busca ser espaço de reflexão sobre o homem e sua presença no mundo. Logo, temos, em última análise, uma aproximação entre a paisagem e a tela, ou entre a tela e o texto: todos, afinal, são palco de, ao mesmo tempo, representação e reflexão sobre o horizonte, local onde o sujeito pode se tornar espaço, e vice-versa.

Se “a paisagem é o lugar de uma troca em duplo sentido entre o eu que se objetiva e o mundo que se interioriza” (ibidem, p. 89) e se ela pode ser compreendida como o local de aliança entre o interior e o exterior, esse caminho de mão dupla remete ao fato de que a arte, como o local de manifestação da cultura, é, também, paisagem, posto que é, enfim, o produto de um fenômeno de encontros: cultura e natureza, olhar e horizonte, pensamento e ação; quem vê e quem é visto.

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COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Organização da tradução: Ida Alves. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013. 204 páginas.


[1] Tradução: “É no horizonte, atrás de alguma forma última e leve que nele se recorta, uma região subitamente mais intensa da luz do céu (…). É, certamente, imaginemos – ao menos, faço-o eu mesmo –, um lugar habitável, lá longe – é, novamente, o real. De toda forma, Morandi pintou , e não raro, em suas redes destruidoras, essas orlas da terra verdadeira.” (Yves Bonnefoy, “À l’horizon de Morandi”, L’Éphémère, n. 5, primavera de 1968 (texto retomado em Le nuage rouge, Mercure de France, 1977, p. 112). In: COLLOT, 2013, p. 178.)

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Ida Alves é, ainda, organizadora, pela Oficina Raquel, de Coisas desencadeadas: estudos sobre a obra de Carlos de Oliveira e, em parceria com Carmem Negreiros e Masé Lemos, Estudos de paisagem: literatura, viagens e turismo cultural, no prelo.

Texto de Mariana Caser da Costa

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Futebol em crônicas e caricaturas

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Cronicaturas de futebol: este é o título do mais recente livro de Fernando Miranda, que é, ainda, autor de Transdialogia e organizador de Pequena-morte: futebol-arte, todas publicações da Oficina Raquel, de que Fernando é não apenas colaborador, mas amigo de longa data.

A introdução de Cronicaturas, que conta com desenhos do competentíssimo Vinicius Mitchell, traz à companhia da leitura não apenas os craques dos grandes times, ou as grandes histórias relativas a esses, mas apresenta “uma provocação, um chamar para o dribling. E uma enormidade de contradições que cabem no jogo, seja ele dentro das quatro linhas, seja ele dentro do mundo, o maior campo de todos os campos”. Assim, o autor confirma, na simplicidade de um “joga-se”, que define a sua escrita, neste texto, a metáfora que é, ao “cronicaturar” momentos, impressões e reflexões acerca de jogos, colocar em jogo a própria vida.

Em campo, o leitor pode se deliciar com a escrita sofisticada de Fernando, que passa pela Europa, pela América Latina e, claro, pelo “centro de concentração” que é a mente imaginativa do autor. Deve ser dada atenção especial às ilustrações de Mitchell, que se encaixam perfeitamente ao texto, escrito em uma bela parceria, que se destaca desde o amálgama que intitula essas cronicaturas.

É título para ser lido, relido e reconhecido entre os clássicos futebolísticos desta editora.


Resenhas de “A resposta e o vento”

 

Duas belas resenhas publicadas por blogs parceiros da Oficina Raquel: A resposta e o vento, de Ricardo Thomé.

http://literaturabr.blogspot.com.br/2013/04/nunca-e-tarde-pra-ser-por-nathan-matos.html

http://rabiscosefragmentos.blogspot.com.br/2013/04/resenha-resposta-e-o-vento-ricardo-thome.html


Oficina Raquel noticiada em Cabo Verde

Macabéa, personagem de “A hora da estrela”, é reescrita no número 1 da coleção Extratextos, pela escritora cabo-verdiana Vera Duarte.

“Macabéa, remodelada e rediviva, acaba se unindo a seu atropelador, como, no texto original, predissera a cartomante. O atropelador brasileiríssimo, filho de um casal de comerciantes bem instalados no Mindelo, sentindo-se remotamente culpado, sem provas, visita-a todos os dias no hospital e se apaixona por ela, que aceita o seu amor”.

Confira o texto na íntegra aqui.


Os três desejos de Octávio C., no jornal O Globo

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“Em uma prosa leve e direta mas carregada de simbolismo, o autor português, destaque da nova geração de escritores de seu país, usa a figura folclórica do gênio da lâmpada para criar uma parábola sobre o descompasso entre desejos individuais e necessidades coletivas.”

Resenha publicada no caderno Prosa e Verso, do jornal O Globo, de 2 de fevereiro de 2013, por Elias Fajardo.

Para conferir o texto na íntegra, clique aqui.


O comedor de Salamanca, no blog de Oswaldo Martins

Professor de Literatura, poeta e autor de cinco livros, Oswaldo Martins publicou, no último dia 29, uma resenha do livro de Jorge Fernandes da Silveira, publicado pela Oficina Raquel em 2012. No texto, lê-se sobre o sabor da narrativa, seus recortes e, claro, sobre a ironia que perpassa os poemas traçados ao longo de toda a obra.

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

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Portugal, 0 no Meia Palavra

No último dia 9, o blog Meia Palavra – famoso espaço de discussão literária na internet – publicou uma resenha sobre o volume 5 da coleção Portugal, 0. No texto, Anica – Bacharel em Estudos Literários pela UFPR – destaca o experimentalismo vigoroso de valter hugo mãe: “É como se cada livro fosse um laboratório no qual ele teve a chance de combinar elementos variados para se expressar”.

Para ler a resenha inteira, clique aqui.

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