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No âmago: Clarice Lispector

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O texto de Clarice Lispector já foi objeto de incômodo, deleite e paixão para muitos. O olhar misterioso que a escritora deixou lançado a fotografias e entrevistas povoa certa mística que contorna o seu nome e nós, leitores, muitas vezes, caímos na tentação de, na paixão da leitura, incluí-la no rol de personagens que brotam de sua pena: Macabea, de A hora da estrela, a Sra. Jorge B. Xavier, de “A procura de uma dignidade” e Angela Pralini, de “A partida do trem”, contos de Onde estivestes de noite, dentre tantas outras personagens, gente, animal ou objeto, são alimentadas pela escrita marcada de Clarice pois, como a própria afirmou, “o personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que, na verdade ele, o leitor, é o escritor”. No bojo desse amálgama, misturam-se Clarice, personagens, leitores e novos textos.

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Essa é, justamente, a proposta de Extratextos I: personagens reescritos de Clarice Lispector. O livro, primeiro volume de uma coleção que planta expectativa sobre futuras releituras, dedica-se a “convidar personagens de autor incontornável, incisivo, de obra conclusa, a renascer, reescritos, vindos de várias mãos”, como lemos na contracapa. Obra publicada pela Oficina Raquel em 2012, organizada por Luis Maffei e Mayara R. Guimarães, também nomes entre os 12 autores-leitores de Clarice, traz narrativas “atrevidas e desavergonhadas”, no dizer de Yudith Rosembaum, responsável pelo prefácio, que entram em “territórios invisíveis até então. Elas querem dizer o que ficou escondido nas entrelinhas da escrita original”. A ler nos vincos entre as linhas claricianas estão os já mencionados organizadores, responsáveis por revisitar, respectivamente, as personagens do conto “A procura de uma dignidade” e “A partida do trem”. Além de Maffei e Mayara, figuram, relendo a fascinante Macabea, Conceição Evaristo e Vera Duarte; Evando Nascimento (Lisette, de “Macacos”, conto de A legião estrangeira); Hélia Correia, que relê as rosas em buquê e Vera Giaconi, que recria a Maria, todas referências ao conto “A imitação da rosa”,  Joseli Ceschim (a galinha, de “Uma galinha”) e o cego de “Amor”, por Silviano Santiago, contos presentes em Laços de Família; os portugueses Maria Teresa Horta e Pedro Eiras colaboram com a releitura de personagens constantes em Felicidade clandestinaUma aprendizagem ou O livro dos prazeres; por fim, cabe a Godofredo de Oliveira Neto a tarefa de ler a própria Clarice Lispector, no conto inédito “É duro como quebrar rochas”. 

Extratextos I é mais que leitura obrigatória, portanto. É espaço de encontro, de deleite, de possibilidades, de uma “cadeia inesgotável de recriações”, segundo Yudith Rosenbaum, que ajuda-nos a concluir, convocando a própria Clarice: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros e o âmago dos outros era eu.” Obrigada, Clarice: esta leitura, agora compreendemos, é desejo de ser âmago. 


Oficina Raquel noticiada em Cabo Verde

Macabéa, personagem de “A hora da estrela”, é reescrita no número 1 da coleção Extratextos, pela escritora cabo-verdiana Vera Duarte.

“Macabéa, remodelada e rediviva, acaba se unindo a seu atropelador, como, no texto original, predissera a cartomante. O atropelador brasileiríssimo, filho de um casal de comerciantes bem instalados no Mindelo, sentindo-se remotamente culpado, sem provas, visita-a todos os dias no hospital e se apaixona por ela, que aceita o seu amor”.

Confira o texto na íntegra aqui.