DIA DO ÍNDIO

‘Uma peninha na mão e muitas ideias na cabeça’

 “Por causa do Dia do índio, do índio por ele mesmo e do meio ambiente, tomei a pena da autora e decidi, eu mesmo, Guga Niquim, escrever uma mensagem sobre o que se comemora no dia 19 de abril.

Para quem não me conhece, sou o personagem principal do livro infanto-juvenil que tem o meu nome, Guga Niquim – o menino-homem-onça, ’editado pela Oficina Raquel. Fui adotado por índios da tribo matis, no Amazonas, quando fugi de casa. Por causa dessa experiência incrível, quero convidar pessoas de todas as idades – crianças, jovens e adultos – a conhecer o universo indígena.

Quase todos sabemos que desde 1500 as várias tribos indígenas vêm sendo dizimadas e acuadas em áreas cada vez menores e também sofrendo toda sorte de desrespeito. Tudo isso virou banal, poucos se importam.

Mas quase nada sabemos quem são realmente os índios, como vivem, como sonham e por que permanecem índios nesse mundo globalizado.

Quem sabe se começarmos a conhecê-los melhor, nem que seja de pouco em pouco, conseguiremos mudar esse jogo – aproveitando que este ano a Copa do Mundo será no Brasil!

Vamos lá, podemos ser criativos.  Ninguém precisa viver uma experiência tão radical como a minha (para conhecer os índios de perto, tive que virar onça), mas professores e escolas podem dedicar mais atenção e energia ao tema durante todo o ano. E os pais também podem ensinar aos seus filhos sobre os povos indígenas, que também têm tanto a nos ensinar.

Pais e professores podem começar contando estórias, pesquisando tribos, lendas, florestas.  Podem incentivar as crianças a escreverem à Presidente da República e a seus ministros (imaginem o Palácio do Planalto recebendo caminhões de cartas, rsrsrs) perguntando o que o Brasil tem feito de fato para garantir justiça aos povos indígenas.  Podem conseguir filmes, podem criar indivíduos-cidadãos socialmente responsáveis.

Minha proposta como filho acolhido por esses indivíduos tão sensacionais é que 19 de abril não seja apenas uma data simbólica. Mas um dia que deve ser multiplicador da consciência coletiva sobre o respeito à dignidade do índio durante todo o ano. Meu desejo é que todos os brasileiros valorizem e comemorem constantemente a influência do índio sobre a nossa história, os nossos hábitos e a nossa cultura. Mais ainda, que tenhamos consciência do que de fato é ser brasileiro.

Se a criação de um dia especial é para homenagear, vamos dar vida, alegria e sentido ao Dia do índio.”

Guga Niquim – Personagem principal do livro ‘Guga Niquim – o menino-homem-onça’, de Marisa Oliveira, editado pela Oficina Raquel


Primavera paulista

EDITORA OFICINA RAQUEL PARTICIPA DA PRIMAVERA DOS LIVROS DE SÃO PAULO COM LANÇAMENTOS E TÍTULOS SOBRE FUTEBOL

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Roberta Ferraz, autora de Saturação de Saturno: abertura da Primavera de SP.

A Oficina Raquel aposta em paixões: por isso, o futebol, grande paixão nacional, e a poesia, capaz de transformar sentimentos em versos, são os dois eixos vocacionais da editora. Estamos presentes, organizando ou participando de eventos que, além de promover a leitura, dão a ler essas paixões, que encontram solo fértil nos textos de um time de grandes autores que temos a alegria de ter por perto.

A Oficina Raquel estará na Primavera dos Livros de São Paulo, na Praça Dom José Gaspar, no Centro, nos dias 10, 11 e 12 de abril. A editora, neste ano de Copa do Mundo, promove a aproximação do público da feira com títulos que falam sobre a ‘paixão nacional’ do brasileiro; aliando futebol e poesia, a abertura será feita por Roberta Ferraz (foto), autora da Oficina Raquel, que, em 2013, lançou o belo livro de poemas Saturação de Saturno.

Estarão à venda na Primavera dos Livros, promovida pela Liga Brasileira de Editores (Libre), além, é claro, das Saturações de Saturno, de Ferraz, o recém-lançado De pernas para o ar – minhas memórias com Garrincha, de Gerson Suares (autor que é enteado da cantora e viúva de Garrincha, Elza Soares); Dez campos, de Jorge Fernandes da Silveira; ’38 círculos, de Luis Maffei, e Contos da Colina – 11 ídolos do Vasco e sua imensa torcida bem feliz, de Maffei, Nei Lopes e Mauricio Murad; Pequena morte – futebol-arte, antologia poética que reúne poetas e ensaístas; Cronicaturas de futebol, de Fernando Miranda; e Olaria – a conquista da taça de bronze, de Marcelo Paes.

“A coletânea da Oficina Raquel sobre livros de futebol oferece uma leitura multidisciplinar. O leitor poderá pensar o futebol sob as suas diversas perspectivas, além de promovermos o diálogo entre o esporte e a literatura. Neste momento, estamos vivendo uma situação única, com o acontecimento da Copa do Mundo no Brasil, momento oportuno para intensificar a leitura e as discussões sobre o assunto. Hora do borbulhar de opiniões e de colocarmos nossas convicções sobre futebol à prova”, analisa Raquel Menezes, diretora da Oficina Raquel.

Os visitantes que passarem pela Primavera dos Livros encontrarão também os últimos lançamentos da Oficina Raquel: Os três desejos de Octavio C., de Pedro Eiras, O prisioneiro do mundo, de Nelson Sargento, Poética e filosofia da paisagem, de Michel Collot, em primeira tradução brasileira, Signos de Camões, de Luis Maffei e o infantil A menina que não gostava de meias, de Simone Magno, entre outras obras de destaque.

 

SERVIÇO

PRIMAVERA DOS LIVROS DE SÃO PAULO

10 a 12 de abril/2014

Praça Dom José Gaspar – Centro – São Paulo

Editora Oficina Raquel – estande 47

Realização: Liga Brasileira de Editores (Libre)

Parceria: Biblioteca Mário de Andrade e Prefeitura de São Paulo

Apoio: BNDES

Grátis!


POÉTICA E FILOSOFIA DA PAISAGEM, Michel Collot


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C’est à l’horizon, derrière quelque forme ultime et légère qui s’y découpe, une région soudain plus intense de la lumière Du ciel. (…) C’est certainement, imagine-t-on, au moins jê Le fais moi-même Morandi a peint, et souvent, dans ses lacis destructeurs, ces ores de la terre vraie.[1]

 Os estudos de poesia vêm sendo marcados por uma estética do território, sobretudo nos últimos anos, através, por exemplo, da fenomenologia de Merleau-Ponty e dos conceitos de lugar e não lugar, propostos por Marc Augé. A mais recente escola francesa, que faz ecoar a voz do eu-lírico flaneur já presente na poesia baudelairiana, ensina-nos a identificar, na subjetividade dos versos, um espaço de interação reflexiva entre sujeito e ambiente que, se no texto se manifesta pela via da linguagem, no espaço configura-se como paisagem.

Michel Collot, que é professor de Literatura Francesa da Université Sorbonne Nouvelle Paris 3, diretor do centro de pesquisa Écritures de la modernité e, ainda, coordenador do grupo de investigação Recherches sur la poésie contemporaine, demonstra, nesta recolha de textos próprios, cuidadosamente traduzidos sob a coordenação de Ida Alves, professora da Universidade Federal Fluminense, sua postura crítica acerca da relação estreita entre a palavra poética e a paisagem. Tal reflexão estrutura-se em torno do que Collot denomina “pensamento-paisagem”, que tem por base a interação entre sujeito e território, visto que “a noção de paisagem envolve pelo menos três componentes, unidos numa relação complexa: um local, um olhar e uma imagem” (COLLOT, 2013, p. 17). Sendo assim, a paisagem torna-se elemento premente na poesia, visto que ocupa o local do “encontro entre o mundo e um ponto de vista”, não sendo “nem pura representação, nem uma simples presença” (Ibidem, p. 18).

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A partir dessa reunião fenomenológica de que nos fala Merleau-Ponty, entre o sensível e o inteligível, Collot estrutura a sua forma de pensar a poesia e a cultura contemporâneas, com o olhar que se expande no horizonte do visível, sendo preenchido pela linguagem. Assim, a construção do texto se dá a partir da interseção entre natureza e cultura, pois “a paisagem é configurada, ao mesmo tempo, por agentes naturais e por atores humanos em interação constante: é, portanto, uma coprodução da natureza e da cultura em todas as suas manifestações, desde as mais materiais (a começar pela agricultura) até as mais espirituais (pintura e poesia incluídas).” (Ibidem, p. 43).

Logo, a concepção dinâmica da paisagem encontra solo fértil na poesia, visto que “o sentido de um texto, como o de uma paisagem, baseia-se na disposição dos elementos que os compõem” (Ibidem, p. 47), e esse diálogo entre texto e paisagem, privilegiado pelas ideias de Collot, é apresentado, pela primeira vez em português, ao leitor brasileiro, nos dez capítulos que compõem Poética e filosofia da paisagem. Ao prefácio de Ida Alves e ao pequeno texto introdutório, de autoria do próprio Collot, seguem-se capítulos que se destinam a esclarecer, ao leitor interessado em uma estética que privilegia as questões paisagísticas, além do conceito de “Pensamento-paisagem”, as relações entre “Paisagem e literatura”, “Lugares românticos e descrição poética”, “Horizonte e imaginação”, e considerações sobre “O espaçamento do sujeito”, “A crise da paisagem”, “Transfigurações”, “Desfigurações”, “Abstrações” e “A abertura ao mundo”.

O livro percorre, portanto, uma trajetória contemporânea de análise do fazer poético enquanto forma de expressão marcadamente lúdica e que, por isso, caracteriza-se pela interação entre homem e natureza; desse modo, a poética não se limita à atitude mimética, bem como a paisagem não se encaixa, apenas, sob o conceito de obra do humano: apontando para uma ética da relação, a paisagem e o fazer artístico encontram-se no local do olhar, moldam-se a partir da interação do eu com o espaço, e a paisagem, bem como a literatura (ou outras atividades inerentes ao homem), são frutos dessa tentativa de síntese. Convém ressaltar que as questões relacionadas à Intersemiótica, tão em voga nas pesquisas literárias, ao valorizarem o diálogo interartes, aproximam-se dos estudos acerca da paisagem, uma vez que extrapolam procedimentos estéticos de origem mimética ou descritiva, para aproximarem-se, especialmente na contemporaneidade, de uma espécie de amálgama entre diferentes formas de arte, que trata não apenas de representação, mas busca ser espaço de reflexão sobre o homem e sua presença no mundo. Logo, temos, em última análise, uma aproximação entre a paisagem e a tela, ou entre a tela e o texto: todos, afinal, são palco de, ao mesmo tempo, representação e reflexão sobre o horizonte, local onde o sujeito pode se tornar espaço, e vice-versa.

Se “a paisagem é o lugar de uma troca em duplo sentido entre o eu que se objetiva e o mundo que se interioriza” (ibidem, p. 89) e se ela pode ser compreendida como o local de aliança entre o interior e o exterior, esse caminho de mão dupla remete ao fato de que a arte, como o local de manifestação da cultura, é, também, paisagem, posto que é, enfim, o produto de um fenômeno de encontros: cultura e natureza, olhar e horizonte, pensamento e ação; quem vê e quem é visto.

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COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Organização da tradução: Ida Alves. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013. 204 páginas.


[1] Tradução: “É no horizonte, atrás de alguma forma última e leve que nele se recorta, uma região subitamente mais intensa da luz do céu (…). É, certamente, imaginemos – ao menos, faço-o eu mesmo –, um lugar habitável, lá longe – é, novamente, o real. De toda forma, Morandi pintou , e não raro, em suas redes destruidoras, essas orlas da terra verdadeira.” (Yves Bonnefoy, “À l’horizon de Morandi”, L’Éphémère, n. 5, primavera de 1968 (texto retomado em Le nuage rouge, Mercure de France, 1977, p. 112). In: COLLOT, 2013, p. 178.)

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Ida Alves é, ainda, organizadora, pela Oficina Raquel, de Coisas desencadeadas: estudos sobre a obra de Carlos de Oliveira e, em parceria com Carmem Negreiros e Masé Lemos, Estudos de paisagem: literatura, viagens e turismo cultural, no prelo.

Texto de Mariana Caser da Costa


No âmago: Clarice Lispector

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O texto de Clarice Lispector já foi objeto de incômodo, deleite e paixão para muitos. O olhar misterioso que a escritora deixou lançado a fotografias e entrevistas povoa certa mística que contorna o seu nome e nós, leitores, muitas vezes, caímos na tentação de, na paixão da leitura, incluí-la no rol de personagens que brotam de sua pena: Macabea, de A hora da estrela, a Sra. Jorge B. Xavier, de “A procura de uma dignidade” e Angela Pralini, de “A partida do trem”, contos de Onde estivestes de noite, dentre tantas outras personagens, gente, animal ou objeto, são alimentadas pela escrita marcada de Clarice pois, como a própria afirmou, “o personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que, na verdade ele, o leitor, é o escritor”. No bojo desse amálgama, misturam-se Clarice, personagens, leitores e novos textos.

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Essa é, justamente, a proposta de Extratextos I: personagens reescritos de Clarice Lispector. O livro, primeiro volume de uma coleção que planta expectativa sobre futuras releituras, dedica-se a “convidar personagens de autor incontornável, incisivo, de obra conclusa, a renascer, reescritos, vindos de várias mãos”, como lemos na contracapa. Obra publicada pela Oficina Raquel em 2012, organizada por Luis Maffei e Mayara R. Guimarães, também nomes entre os 12 autores-leitores de Clarice, traz narrativas “atrevidas e desavergonhadas”, no dizer de Yudith Rosembaum, responsável pelo prefácio, que entram em “territórios invisíveis até então. Elas querem dizer o que ficou escondido nas entrelinhas da escrita original”. A ler nos vincos entre as linhas claricianas estão os já mencionados organizadores, responsáveis por revisitar, respectivamente, as personagens do conto “A procura de uma dignidade” e “A partida do trem”. Além de Maffei e Mayara, figuram, relendo a fascinante Macabea, Conceição Evaristo e Vera Duarte; Evando Nascimento (Lisette, de “Macacos”, conto de A legião estrangeira); Hélia Correia, que relê as rosas em buquê e Vera Giaconi, que recria a Maria, todas referências ao conto “A imitação da rosa”,  Joseli Ceschim (a galinha, de “Uma galinha”) e o cego de “Amor”, por Silviano Santiago, contos presentes em Laços de Família; os portugueses Maria Teresa Horta e Pedro Eiras colaboram com a releitura de personagens constantes em Felicidade clandestinaUma aprendizagem ou O livro dos prazeres; por fim, cabe a Godofredo de Oliveira Neto a tarefa de ler a própria Clarice Lispector, no conto inédito “É duro como quebrar rochas”. 

Extratextos I é mais que leitura obrigatória, portanto. É espaço de encontro, de deleite, de possibilidades, de uma “cadeia inesgotável de recriações”, segundo Yudith Rosenbaum, que ajuda-nos a concluir, convocando a própria Clarice: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros e o âmago dos outros era eu.” Obrigada, Clarice: esta leitura, agora compreendemos, é desejo de ser âmago. 


Futebol em crônicas e caricaturas

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Cronicaturas de futebol: este é o título do mais recente livro de Fernando Miranda, que é, ainda, autor de Transdialogia e organizador de Pequena-morte: futebol-arte, todas publicações da Oficina Raquel, de que Fernando é não apenas colaborador, mas amigo de longa data.

A introdução de Cronicaturas, que conta com desenhos do competentíssimo Vinicius Mitchell, traz à companhia da leitura não apenas os craques dos grandes times, ou as grandes histórias relativas a esses, mas apresenta “uma provocação, um chamar para o dribling. E uma enormidade de contradições que cabem no jogo, seja ele dentro das quatro linhas, seja ele dentro do mundo, o maior campo de todos os campos”. Assim, o autor confirma, na simplicidade de um “joga-se”, que define a sua escrita, neste texto, a metáfora que é, ao “cronicaturar” momentos, impressões e reflexões acerca de jogos, colocar em jogo a própria vida.

Em campo, o leitor pode se deliciar com a escrita sofisticada de Fernando, que passa pela Europa, pela América Latina e, claro, pelo “centro de concentração” que é a mente imaginativa do autor. Deve ser dada atenção especial às ilustrações de Mitchell, que se encaixam perfeitamente ao texto, escrito em uma bela parceria, que se destaca desde o amálgama que intitula essas cronicaturas.

É título para ser lido, relido e reconhecido entre os clássicos futebolísticos desta editora.


Maria Teresa Horta: “Azul cobalto”

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Maria Teresa Horta é artista da palavra celebrada em Portugal, reconhecida por seu engajamento político que ultrapassa questões partidárias para atingir o cerne daquilo que há, talvez, de mais político no fazer humano, que é o ato de fazer literatura. A escritora segue, pois, os apontamentos de Jacques Rancière, em Politique de la littérature (2007), que parte da hipótese de que a política da literatura, não dizendo respeito a uma política divulgada por escritores ou ao engajamento pessoal de um ou outro poeta nas lutas sociais de seu tempo, implica que a literatura faz política pelo simples fato de ser literatura, pois que existe um vínculo essencial entre a política como forma específica da prática coletiva e a literatura como prática definida da arte de escrever.

Assim, o poder do literário finca-se em terrenos que excedem o do belo, ou o do panfletário, mas que se caracterizam pela arte que difundem, pelas ideias que espalham, pelo belo que leva ao incômodo, ao questionamento, à reflexão. Ato político inerente ao literário.

Atenta às questões do feminino, da política de seu país e a tantas outras questões que perpassam sua arte, Maria Teresa Horta oferece, agora, ao público brasileiro, em publicação pela editora Oficina Raquel, uma coletânea de contos que se desdobram, por uma temática que remete à mulher, especialmente à relação entre mãe e filha, em configurações imagéticas que dão à leitura questões pertinentes à atualidade.

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O conjunto de seu texto faz referência a questões antigas na literatura, especialmente a portuguesa, como o fingimento e a relação com a História do país, mas também toca assuntos em voga no campo dos estudos literários, a saber: o diálogo entre as artes – a pintura que serve de capa ao livro e um de seus contos, por exemplo, possuem um diálogo belíssimo, proporcionado pela qualidade do texto de MTH -; a temática neobarroca – como a sensação de desconcerto, a inquietação, a mutação da mulher que ganha asas – e, obviamente, questões atemporais, tais como as que permeiam o universo feminino, tão bem ilustradas na epígrafe da obra: “Voar, é o gesto da mulher, voar na língua, fazê-la voar.” (Hélène Cixous).

Na página oficial de Maria Teresa Horta no Facebook, foi publicado o seguinte:

“«AZUL COBALTO»: DOZE CONTOS DE MTH NO BRASIL

A maquete da capa do livro «Azul Cobalto», título de um dos doze contos de Maria Teresa Horta que integram o volume, foi ontem enviada à escritora pela editora Oficina Raquel, do Rio de Janeiro,que anuncia a sua publicação para o próximo mês de Março. Questões burocráticas atrasaram a edição brasileira, inicialmente prevista para o ano passado, deste livro de contos de MTH – todos eles já publicados em Portugal, onde se mantêm entretanto dispersos por vários livros e revistas. Os contos agora coligidos no Brasil são, além de «Azul cobalto», «Lídia», «Calor», «Uriel», «A Princesa espanhola», «Com a mão firme e doce», «Raízes», «Laura e Juliana», «Efémera», «Eclipse», «Leonor e Teresa» e «Transfert». «Calor» é uma versão revista de um conto publicado no «Expresso» em 17 de Março de 1973, sob o título «Mónica». A utilização mais tarde, por esquecimento da autora, do mesmo título num outro conto com um entrecho completamente diferente (este já publicado no Brasil na colectânea «Intimidades», de várias autoras, e actualmente editado em e-book pela Dom Quixote-Leya em Portugal), levou Maria Teresa Horta a reescrever o conto do «Expresso» e a dar-lhe um novo título.”

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Em breve, a Oficina Raquel promoverá o lançamento de Azul cobalto. Estudiosos da obra de Horta, interessados em literatura portuguesa e amantes do belo (e do político) literário não deverão perder o evento.


E se Camões fosse aquariano?

Autor brasiliense, um dos escritores agraciados com o Prêmio Icatu de Artes, mergulha em jogo poético para simular qual signo teria regido o criador de Os Lusíadas

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Toda vez que pisa em Brasília, o poeta e professor Luis Maffei sente-se cindido ao meio. É como se estivesse cortado por uma fenda e se formasse um abismo em si. De um lado, está o homem nascido na capital e levado ainda menino para outras terras. De outro, o forasteiro, cujos olhos curiosos parecem sempre correr a cidade monumental com o desejo de vasculhar até o que está à sombra dos vãos. Íntimo e simultaneamente estranho, ele confessa que se desloca pelo território natal à caça de esmiuçar a realidade de espaços amplos e perturbadores. “Brasília é um espanto!”, revela o escritor, um dos seis selecionados pelo Prêmio Icatu de Artes, um dos mais respeitados do país, com o livro Signos de Camões.

Esse olhar de navegador em busca de outros mundos o fez enveredar pelos mares da poesia ainda adolescente. Entre 14 e 15 anos, Maffei mergulhou, sem anteparo algum, numa infinidade de livros e filmes. Rapaz, curioso descobridor de universos, passou a pensar as relações com o mundo a sua volta a partir de uma mediação poética. “Entre outras características, a poesia é a arte da desconfiança. Nesse sentido, acredito nela como em poucas outras expressões de nossa espécie.”
Tragado pelo poético, Maffei se viu diante de um dos maiores desafios. O de navegar pelo misterioso mar de Luís de Camões, o autor que deu ao português a dimensão de língua, com o lançamento de Os Lusíadas, publicado originalmente em 1572. Assim como o escritor que criou uma representação do povo e da nação portuguesa a partir dos feitos de Vasco da Gama, Maffei põe a postos a caravela para explorar as possibilidades que giram em torno da data de nascimento do autor lusitano, cercada de histórias e mistérios.

Sabe-se que Camões foi concebido por volta do ano de 1525 e nada mais. “Delicio-me com a astrologia. Ela permite, muito mais que determinações fixas, movências de caracteres muito poderosas – um mapa astral é coisa riquíssima. Como não se sabe a data de nascimento de Camões, procurei que cada poema lidasse com traços da obra camoniana que fossem mais próximos a características gerais dos respectivos signos.”

Unindo poesia e astrologia, Maffei rodou o leme pelo zodíaco. Trocou o mapa-múndi pelo astral na tentativa de se aproximar de um Camões que ecoasse nele. A procura era antiga. Não apenas como poeta, mas como professor de literatura portuguesa da Universidade Federal Fluminense. “O primeiro nó do processo foi realmente ‘um nós’: Camões e eu. A procura dos poemas foi dupla, pois era preciso achar um pouco da voz camoniana e, acima disso, a minha. Atar os nós nesse processo teve que ver, por exemplo, com explorar formas fixas muito visitadas por Camões, como a canção, e outras por ele menos exploradas, como a sextina, e duplicar um soneto, pondo nele uma dobradiça. Além disso, precisei confrontar-me com os signos poéticos camonianos, e isso fez do processo de escrita um processo de leitura, entendimento e mudança.”

 

Adequando formas poéticas e temas ao encontro desse duplo eu, Maffei criou um instigante jogo com o leitor. Ao fim de cada signo, fica-se livre para aproximar as possibilidades em torno da influência cósmica sobre a poesia camoniana. “Alguns leitores procurarão traços seus no poema de seu signo, e, nos outros, de pessoas próximas. Caso leiam Signos de Camões como um livro de poemas exige ser lido, ou seja, lenta e repetidamente, poderão sair dos signos zodiacais imediatamente considerados para os signos poéticos que se encontram à espera de finos olhos.”

 

É evidente que Luis Maffei só conseguiu adentrar com essa missão no universo camoniano porque conhecia muito bem os caminhos do poeta. O processo de escrita, no entanto, alterou sua forma de ver o escritor. Agora, ele o examinou com olho de poeta. Antes, sempre o fez como leitor especialista. “Pude explorar das formas fixas e das não fixas, como nos casos de áries e escorpião, poemas sem versos, e de aquário e leão, poemas no chamado verso livre.”

Maffei fez o mapa astral. É aquário com ascendente em touro. Passou a gostar da astrologia pelos sentidos humanos e humanizantes que o zodíaco constrói e pela imensa gama de narrativas que possibilita. “Como produção de sentidos a ler, acredito nela, pois não a vejo como postulante de uma verdade aprisionadora.” Em Signos de Camões, ele não arrisca suspeitar, com responsabilidade, qual teria sido o signo desse poeta plural. Aliás, manter esse enigma faz do livro um mar a ser revisitado.

 

SIGNOS POÉTICOS

 

Por Luis Maffei

 

ÁRIES
A ti, persigo-te como fogo, como uma criança que tem fome e eu as tenho, a criança e a fome, razões de ser com 
muitas faces

TOURO
Neste andar em labirinto, tenho a mim e ao meu valor, tela inteira cuja 
cor como a ti, me esmero e pinto: doto a língua 
de sabor

CÂNCER
Angústia de remar eu não contorno espelho do meu rosto em fim me torno

GÊMEOS
Encontro-te buraco negro e calvo, teu gesto em maternal sepultamento, da ausência sua agora muito privo

LEÃO
E que depois de depois de depois. O público se mova para ver o artista 
e nade pelo menos pelo livro: um olho no peixe, outro em mim. Mesmo para sabermos se andam bem o broche e a comitiva

VIRGEM
Ao eco do assombroso maquinário adumbram 
as flores ocas de veneno em mole mas benévola oficina, sinais de trafegar que eu mesmo teste, 
o trânsito obnubila 
o panorama. As rua engarrafam sua espessura
LIBRA
Estou com as pernas sobre o precipício, os pés de ambos os lados do barranco; Qual boca diz que induz somente ao vício Armar concertação de cada flanco?

ESCORPIÃO
Sem ser visto, 
começo a abandonar 
a construção. Vejo mais que nunca, calo como nunca, estou invisível como nunca estive 
nem voltarei a estar

SAGITÁRIO
Lisboa é só Rio quando lugar ameno, é palco onde enceno, um rosto em 
que vejo, em que sorrio

CAPRICÓRNIO
Mar ou terra, tudo em torno se trabalha e se renova; cada coisa é a própria prova, cada estar é o seu retorno. Paciente

AQUÁRIO
Depois me caiba a sina 
de soprar cantando 
ao mundo a muita 
parte de invenções 
e ensinamentos, ouço: 
a minha vida é isto

PEIXES
Já noite sem luar, 
mar sem ventura, delfins 
sem peso e barcos sem poderes. Há signos com real, não sei se há cura

 

Signos de Camões

 

 

Astróloga literária

 

No processo de criação, Luis Maffei contou com a consultoria de Roberta Ferraz, poeta, astróloga, ficcionista e doutoranda em literatura portuguesa na USP. Ela escreveu o posfácio d do livro e confessa que a obra a aproximou como nunca do poeta lusitano. “Se isso acontecer com os leitores, será uma grande alegria para mim”, sonha Maffei

 

Quem tem medo de Os Lusíadas?

 

 

Luis Maffei, no Real Gabinete Português
de Leitura, diante da estátua de Camões:
livro também publicado em Portugal

Tem muita gente que tem medo de enfrentar Os Lusíadas por achar um livro dificílimo e até enfadonho. Luis Maffei o encarou pela primeira vez, de cabo a rabo, na faculdade, com 20 e poucos anos. Como deu muitas aulas, e até cursos inteiros sobre Os Lusíadas, correu os olhos diversas vezes sobre o livro. “E sempre volto a ele, e sempre voltarei”, avisa.

 

Para quem pensa em se aventurar na epopeia de Camões, Luis Maffei aconselha que o leitor tenha em mãos um bom livro crítico que indique os caminhos da obra, que é “pura transgressão e lirismo”.  Ele enfatiza que, no correr do tempo, Os Lusíadas foi lido de forma conservadora, sem o gozo poético. “O Brasil tem alguns admiráveis leitores de Camões. Na poesia, posso citar Carlos Drummond de Andrade e Manoel Bandeira”, destaca Luís, contando que a afilhada poética dele, Julia, leu com 14 anos, e muito bem.

Maffei defende que Camões é a mais perfeita definição do poeta clássico. “Portanto, muitos versos seus são conhecidos e citados por pessoas que nem sabem que o estão citando. A poesia, em geral, tem sofrido, nesta contemporaneidade, um bocado surda. Neste país de educação básica capenga, um silenciamento terrível. Por isso, nem Camões nem poeta algum têm a leitura e os leitores que merecem.”

 

Fonte: http://sites.correioweb.com.br/app/noticia/encontro/revista/2013/12/03/interna_revista,913/e-se-camoes-fosse-aquariano.shtml